Quarta-feira, Setembro 19, 2007

"Bom dia!

Espero que você consiga encontrar um médico como deseja (adepto do parto natural). Essa tarefa é como procurar agulha num palheiro...
E, sendo muito sincera com você, é fundamental a mulher se informar muito sobre tudo no parto pra saber o que realmente quer, mas, considerando o momento e o estágio onde nos encontramos nesse assunto, lá na hora H o médico acaba decidindo as coisas se a mulher informada não tiver quem a apóie!
Pelo menos uma doula, ou um acompanhante de parto que saiba fincar o pé para apoiar as escolhas da parturiente é necessário.

Quando a gente vai parir, por mais que saiba tudo, acaba ficando fragilizada e o médico nessa hora acaba detendo o poder se for um cara não humanista, não adepto do parto natural. A gente, sensibilizada pra caramba na hora, e sem ninguém que nos apóie, acaba baixando a cabeça e se submetendo às coisas que o médico define. Tenha muita atenção para isso!

Com relação à rotina de parir deitada e a vontade de não passar pela episiotomia, bom, não é loucura isso! De jeito algum. É possível. O que é fundamental para parir sem episiotomia e sem laceração grave é que o período expulsivo (isto é, "o momento que o bebê já está no canal de parto - a vagina - e está saindo dali, nascendo efetivamente") seja SUAVE. É muito normal a mulher tomar anestesia (ou não), não saber o tipo de força fazer, se deve ou não fazer força, ficar desesperada, o médico apressado e inseguro, e na hora do expulsivo todo mundo querer que a coisa seja rápida.

Para ser rápido, o médico manda a mulher fazer força quando não precisa (o expulsivo não requer aquela força desesperada, se a mulher estiver numa posição mais vertical, por exemplo, aí é mais fácil ainda) e alguém sobe por cima da barriga da mulher pra apertá-la e o bebê sair logo. Na verdade isso é como uma bomba pro períneo! :-( Por isso fazem episiotomia...

Para você saber, caso já não saiba, o nome desse ato de alguém subir em cima da barriga apertando-a pro bebê nascer logo é a tal Manobra de Kristeller (que eu acho uma violência sem tamanho! Passei por isso e odiei!!!).

Enfim, o que eu queria lhe dizer é que é uma CASCATA de coisas (intervenções) que leva a um parto totalmente alterado, medicalizado e com a mulher com um papel muito secundário... É o hospital que coloca a gente nua, que raspa, que faz lavagem intestinal (o tal enema), é o médico que comanda e apressa, é a anestesia que nos faz ficar meio alienadas do processo, é a ignorância generalizada que faz todo mundo mexer no processo que deveria ser natural, é ficar deitada numa sala estranha com um monte de gente estranha, o medo da gente (e em grande parte das vezes no inconsciente o medo é maior ainda) que bloqueia nosso corpo e o impede de fazer o que deve na hora de parir, e isso tudo acaba geralmente na Manobra de Kristeller e numa a episiotomia – se a mulher conseguir um parto vaginal – ou, indo mais longe um pouco, numa cesariana. (Na verdade, num cenário mais medicalizado ainda, a cesariana pode ser até marcada desnecessariamente sem que a mulher sequer entre em trabalho de parto!)

Para evitar esse tipo de final, a busca da gente deve começar o quanto antes, se possível antes ainda de engravidarmos, no sentido de nos educarmos de forma diferente sobre a gestação e o parto... de mudar nossa forma de pensar sobre isso... E, enquanto na Classe Médica o parto não for visto como um evento natural, da fisiologia da mulher, nossa busca passa pelo fato de encontrar um profissional de saúde que nos apóie, porque de outra forma é muito comum nosso "sonho" de parto, ou "parto dos sonhos", vir por terra.

Conte comigo no que eu puder ajudar... Fique à vontade para conversar o que quiser... Muitas vezes eu não sei as respostas, mas podemos tentar buscá-las!"


(*Nota da Bartira*: esse texto é meu mesmo... Mudei um pouco, mas foi resposta a um email que me chegou de uma mulher grávida querendo ajuda na sua busca... Achei que a resposta ficou interessante e a modifiquei um pouco para que pudesse ser publicada aqui e fazer sentido em termos mais gerais. Acho que traz reflexões para todas nós.)

escrito por BARTIRA CARVALHO em 10:04

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Meu nome é Ingrid Lotfi, tenho 30 anos, sou do Rio de Janeiro. Sou doula formada pela ANDO e Analista de Sistemas. Sou casada e tenho um filho de 4 anos e 8 meses, chamado João Victor que nasceu de uma cesárea desnecessária, o que gerou todo esse meu envolvimento com a área de humanização do nascimento.

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Meu nome é Bartira Carvalho, tenho 30 anos, sou do Rio de Janeiro. Sou bióloga e trabalho com Informática na área das Geociências. Tenho uma filha de 5 anos e 5 meses que nasceu de parto normal hospitalar. Meu interesse pelo Parto Humanizado vem da época da gestação, mas somente em 2003 consegui pensar sobre o parto, digerí-lo e então lutar pela divulgação da humanização do nascimento. Também escrevo no XôEpisio!

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Recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1996

Para humanizar o Parto as seguintes condutas:
No pré-natal
planejar onde e como o nascimento será assistido;
avaliação do risco durante a gestação;
monitoramento do bem-estar físico e emocional da mulher;
respeitar a escolha da gestante sobre o local e nascimento;
prestar informações sempre que necessário;

Na admissão
respeitar a privacidade da mulher;
respeitar a escolha do acompanhante;

Durante o trabalho de parto
oferecer líquidos via oral;
dar suporte emocional empático;
prestar informações sempre que necessário
uso único de materiais descartáveis;
respeitar o direito à opinião sobre a episiotomia;
corte do cordão umbilical tardio com material estéril;

Posição durante o trabalho de parto
encorajar a posição não deitada;
liberdade de posição e movimento;

Controle da dor
alívio por meios não invasivos, não farmacológicos (massagens, técnicas de relaxamento, etc...);

Monitoramento
do bem-estar físico e emocional da mulher;
fetal, por ausculta intermitente do progresso do trabalho de parto por meio do partograma;

Após a dequitação
exame de rotina da placenta;
uso de ocitócitos no terceiro estágio se há risco de hemorragia;
prevenção da hipotermia do nenê;
amamentação na primeira hora.

Os Direitos da Mulher
01. Presença do companheiro ou alguém da família para acompanhar o parto, dando segurança e apoio.
02. Receber as orientações, passo a passo, sobre o parto e os procedimentos que serão adotados, com a mulher e o bebê. A mulher bem informada faz melhor a sua parte, ajuda mais.
03. Receber líquidos (água, suco), pois o trabalho de parto pode durar até 12 horas.
04. Liberdade de movimentos durante o trabalho de parto. A mulher pode caminhar sem restrições.
05. Escolha da posição mais confortável para o parto.
06. Relaxamento para aliviar a dor. Pode ser massagem, banho morno ou qualquer forma de relaxamento conveniente para a mulher.
07. Parto seguro, sem muitos procedimentos que podem até atrapalhar em vez de ajudar. É importante verificar sempre as contrações e escutar o coração do bebê.
08. Contato imediato com o bebê logo que nasce. Muito importante para mãe e filho.
09. Alojamento conjunto, para que o bebê fique o tempo todo perto da mãe, recebendo seu carinho e atenção.
10. Respeito. A mulher deve ser respeitada, chamada pelo nome, ter privacidade, ser atendida em suas necessidades.

Ministério da Saúde

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