Quarta-feira, Abril 19, 2006

Veja alguns números e alguns fatos do que está acontecendo com o parto no Brasil...


1) 79% dos partos realizados no setor privado são cesarianas. (Dados de 2004)

2) 27% dos partos realizados pelo SUS são cesarianas. (Dados de 2004)

3) A OMS recomenda que apenas 15% dos partos sejam cesáreos.

4) 77% das mulheres brasileiras entrevistadas preferem parto normal. Entrevista realizada antes e depois do parto. (http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/anais/PDF/1998/a160.pdf)

5) Um parto normal pode durar até 48 horas.

6) O custo do parto normal para médicos e hospitais é até 30% maior do que na cesariana, contabilizando o tempo de atenção dispensados pelas enfermeiras e equipe médica, o tempo de utilização de salas especiais para parto etc.

7) O número de cesarianas no SUS foi reduzido no momento em que o Governo decidiu estabelecer uma cota de remuneração para cesarianas, por mês. Isto é, acima de uma determinada porcentagem, a cesariana não é remunerada.

8) O número de cesarianas não diminuiu no setor privado, apesar da equiparação de remuneração dos médicos pelos dois tipos de procedimentos.

9) O Ministério da Saúde não tem o poder de interferir na saúde privada.

10) O órgão regulador que fiscaliza os planos de saúde e convênios é a ANS, que pouco pode fazer também, enquanto não houver denúncias.

11) Apesar da cesariana de ter se tornado uma cirurgia mais segura, continua sendo uma cirurgia de amplo aspecto, com todos os riscos de uma cirurgia de amplo aspecto.

12) Os riscos de uma cesariana para a mãe são 350% maiores de complicações posteriores e para o bebê 400% maiores de problemas respiratórios.

13) Hospitais ganham na venda dos medicamentos e nas internações, especialmente internações em UTIs.

14) Hospitais e profissionais da área da saúde também têm metas de "produtividade". Internações e procedimentos desnecessários são utilizados para bater essas metas.

15) Médicos conseguem negociações mais vantajosas com os hospitais, pela quantidade de clientes internados e pela quantidade de horas utilizadas de centro cirúrgico.

16) Os hospitais cobram esta conta dos convênios. Os convênios cobram este custo desnecessário de todos os segurados.

17) O maior cliente do hospital não é o paciente, mas o médico.

18) Cesárea por conveniência médica é uma transgressão ética. (http://www.amigasdoparto.com.br/ac025.html)

19) Em 60% dos casos de cesárea no Brasil, a razão médica apresentada não justificava o procedimento e era no mínimo duvidosa. (Idem artigo acima)

escrito por BARTIRA CARVALHO em 22:59

Sexta-feira, Abril 14, 2006

Trevas e Luz


Fonte: mensagem enviada pelo Dr. Ricardo Herbert Jones para a lista Parto Nosso em 14 de Abril de 2006.

"O caminho que a humanização do nascimento vem trilhando é igual a todos os outros movimentos 'libertários' que podemos distinguir ao analisar a história da humanidade. O ponto de partida para qualquer um desses movimentos, qualquer que seja sua época de aparição, é sempre uma indignação surda, uma inquietação sem objeto claro, uma 'farpa na mente, ardente e corrosiva', como me dizia Maximilian. Sabemos que algo está fora de lugar, mas não entendemos bem o que. É como a clara sensação de que saímos da estrada porque nos falta o asfalto sob os pés, mas não sabemos onde estamos nem como voltar para o caminho. Uma sensação de isolamento e dor; raiva e medo.

Em qualquer uma das situações que possamos analisar, a trajetória será semelhante. Quando observamos as lutas trabalhistas do início do século XX, notamos que a indignação dos trabalhadores com os baixos salários, a exploração, as péssimas condições de higiene e a carga desumana de trabalho foram respondidas por eles com violência e agressão, como a destruição de máquinas e a queima dos equipamentos. Não havia sutileza alguma: a maquinaria e o empresariado eram diabolizados, e criava-se a ilusão de que a simples destruição irrefletida dos equipamentos poderia suavizar a discrepância entre os que detinham o capital e os que se submetiam a ele.

O correr dos anos nos mostrou que esta estratégia não era capaz de solucionar a questão. O empresariado, mesmo que despótico e desumano, era composto de indivíduos que não diferiam, em essência, dos proletários. Bastava que um empregado atingisse os estratos burgueses da sociedade para que passasse a agir de acordo com os antigos inimigos. Assumia todos os trejeitos e vícios dos que outrora criticava. A possibilidade de ascensão social nos mostrou que as diferenças não eram devidas a uma essência diferenciada entre 'bem-nascidos' e 'miseráveis', mas sim o produto de uma ultra-estrutura desigual e perversa que era (é) a arquitetura básica de nossas sociedades.

A destruição dos móveis, equipamentos e mesmo dos próprios burgueses jamais melhorou qualquer modelo social ocidental. A experiência do socialismo científico 'real', da antiga União Soviética, deixou clara a impossibilidade de acabar à força com estas diferenças sociais. Mudanças desta natureza ocorrem apenas quando a sociedade inteira dá um passo no sentido da solidariedade e da união. Jamais ocorreram por decreto.

A humanização do nascimento também surgiu como um movimento de indignação e protesto contra o que nos parecia uma violação da natureza. Carregamos no íntimo um "genus protetans" (expressão que o Max usava) que é ativado quando algo suficientemente ameaçador atinge a nossa espécie. Temos uma percepção inconscientemente de que, se violarmos o momento do nascimento, estaremos colocando em risco a própria sobrevivência da espécie. Os anciãos Innuit diziam 'É preferível que morra uma criança do que exterminar uma cultura', explicando porque achavam que a remoção de mulheres grávidas para grandes cidades do Canadá colocava em risco toda a cultura esquimó, pois que nenhuma criança nascia nos eu solo sagrado: eram todas 'estrangeiras', 'alienígenas em sua própria terra'.

Entretanto, nossa forma de reagir frente ao que entendemos como ameaça difere no tempo, como qualquer outro movimento, mas não nos passos fundamentais. No passado, 'queimávamos' a tecnologia e os médicos, acreditando serem eles os responsáveis por uma cultura que desprezava as qualidades femininas de gestar e parir. Tínhamos a idéia de que eles, movidos por sentimentos egoísticos e interesseiros, eram os culpados pela situação que ainda nos encontramos. A hospitalização de todas as mulheres, o uso de drogas perigosas na gravidez e no parto, as analgesias e cirurgias desmedidas e a alienação crescente das mulheres, eram vistos pelos humanistas como produções que tinham um grande culpado: os médicos e a sua medicina mercantilista.

Foram necessários alguns anos para que percebêssemos o simplismo ingênuo dessas afirmações. Médicos nada mais são do que produtos de uma sociedade tecnocrática, que reproduzem valores que a mesma sociedade valoriza. Não existe sociedade violenta com médicos vestais; não existe sociedade evoluída em que os médicos também não sejam preparados de forma menos agressiva. A tela de Magritte 'Drawing Hands' é para mim a melhor metáfora deste modo de ver nosso crescimento: duas mãos em oposição, em que uma acaba o desenho da outra. Somos responsáveis pelos médicos e pela medicina que cultuamos. Somos os CRIADORES e perpetuadores deste modelo, e só nós poderemos mudá-lo. Médicos e medicina obedecem inconscientemente aos ditames profundos desta cultura e, portanto, mudar o modo como nascemos é uma tarefa de cada um de nós que compõe esta civilização. Uma assistência gentil e digna ao nascimento criará as condições psicológicas para uma sociedade menos violenta; ao mesmo tempo uma sociedade menos violenta EXIGIRÁ que nossos cuidadores atendam mulheres com suavidade, gentileza e respeito no momento de parir. Uma mão acaba o desenho da outra, formando um círculo virtuoso.

As trevas da assistência ao nascimento surgem desta vinculação do nascimento humano às correntes de pensamento que desqualificam a mulher e o feminino. Somos herdeiros de um modelo patriarcal que nos acompanha há mais de 10 mil anos, criado pelas necessidades advindas da posse e da guerra. Enquanto mulheres forem consideradas seres inferiores e defectivas (pois não afeitas ao combate), jamais poderemos ter dignidade no momento do nascimento. Enquanto a violência for o método natural de relação entre as criaturas, os guerreiros e os senhores da guerra serão os donos desta civilização. A mudança será pela paz. Somente a PAZ poderá nos retirar das trevas e nos elevar à luz.

Uma boa Páscoa a todos!"

escrito por BARTIRA CARVALHO em 23:58

Quinta-feira, Abril 06, 2006

Um papo sobre circular de cordão e cordão curto...


A gente vê que é muito comum as circulares de cordão umbilical e cordões umbilicais curtos serem razões para cesárea, algumas vezes com data marcada antecipadamente, inclusive.
Nas listas de discussão, nas listas de grávidas, de mães, etc. o tema é sempre abordado e a insegurança com relação a isso é geral. Há alguns dias circulou na lista Parto Nosso, da qual fazemos parte, mensagens sobre o tema, novamente, e resolvemos fazer um apanhado breve de informações interessantes para publicar aqui...

Caso você não saiba, de 30 a 40% dos bebês têm circulares de cordão. É um fato tão corriqueiro e sem valor que não sabemos porque ainda escrevem isso nos exames de ultrassom. A Ingrid, como doula, já acompanhou partos com bebês que tinham 3 voltas de cordão e não foi nada demais. É possível e fácil desenrolar as voltas no momento do parto e, se forem apertadas, o cordão pode ser cortado precocemente. Não se esqueçam que os bebês na barriga e na hora do nascimento ainda não respiram pelos pulmões e sim pelo cordão. Dizer que um cordão enrolado no pescoço pode levar ao sufocamento é como dizer que um bebê que nasce na água se afoga! Ficamos imaginando como os bebês conseguem ficar tanto tempo na barriga enrolados no cordão e imersos na água!

Cabe salientar que cordão curto é diferente de cordão enrolado. Além disso, qualquer parto pode complicar, principalmente se tiver uma assistência ruim.
É como "fazer arroz", mal comparando... Digamos que ele comece a "queimar". Quem tem experiência vai lá, abaixa o fogo, dá um jeitinho e a coisa sai. Mas quem não sabe se desespera, joga água em cima e termina de estragar tudo! Como resolve isso? Avisando que arroz que começa a queimar tem risco de estragar todo? Eu prefiro deixar o arroz fora disso e sugerir um bom cozinheiro ;-).

Existe um (um!) caso raro que tivemos notícia de ter acontecido certa vez que foi o de um bebê que morreu ainda dentro da barriga da mãe porque havia um nó verdadeiro de cordão. É praticamente impossível detectar um caso desses e olha que nem estamos falando disso, e sim de voltas.

Existem casos que são fatalidades, não há como fugir. São os riscos inerentes da vida, do fato de estarmos vivos, respirando, vivendo e circulando por aí. O jeito é relaxar. Sair a pé no Rio de Janeiro me acrescenta um risco "X" de morrer de assalto. Eu deixo de sair e passo a andar de carro. Meu carro é roubado e eu sou assassinada após um seqüestro relâmpago. Adiantou alguma coisa?
Vale a pena relembrar que você pode morrer toda vez que sair nas ruas do Rio?
Pois, então, o risco de morrer de cordão enrolado é bem mais remoto que esse. Fazer terrorismo com isso não adianta nada, só nos coloca ainda mais nervosas.

Se queremos combater o alto índice de cesáreas, precisamos combater a cultura do medo e do terrorismo. Uma sociedade medrosa, é uma sociedade entregue e sem liberdade. Riscos remotos sempre existem e precisamos conviver com eles de maneira natural. É diferente de um caso onde a mulher tem uma gravidez REALMENTE de alto risco. Isso sim merece cuidados especiais...

escrito por BARTIRA CARVALHO em 00:14

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Meu nome é Ingrid Lotfi, tenho 28 anos, sou do Rio de Janeiro. Sou doula formada pela ANDO e Analista de Sistemas. Sou casada e tenho um filho de 3 anos e 6 meses, chamado João Victor que nasceu de uma cesárea desnecessária, o que gerou todo esse meu envolvimento com a área de humanização do nascimento.

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Meu nome é Bartira Carvalho, tenho 28 anos, sou do Rio de Janeiro. Sou bióloga e trabalho com Informática na área das Geociências. Sou casada e tenho uma filha de 4 anos que nasceu de parto normal hospitalar. Meu interesse pelo Parto Humanizado vem da época da gestação, mas somente em 2003 consegui pensar sobre o parto, digerí-lo e então lutar pela divulgação da humanização do nascimento. Também escrevo no XôEpisio!

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Recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1996

Para humanizar o Parto as seguintes condutas:
No pré-natal
planejar onde e como o nascimento será assistido;
avaliação do risco durante a gestação;
monitoramento do bem-estar físico e emocional da mulher;
respeitar a escolha da gestante sobre o local e nascimento;
prestar informações sempre que necessário;

Na admissão
respeitar a privacidade da mulher;
respeitar a escolha do acompanhante;

Durante o trabalho de parto
oferecer líquidos via oral;
dar suporte emocional empático;
prestar informações sempre que necessário
uso único de materiais descartáveis;
respeitar o direito à opinião sobre a episiotomia;
corte do cordão umbilical tardio com material estéril;

Posição durante o trabalho de parto
encorajar a posição não deitada;
liberdade de posição e movimento;

Controle da dor
alívio por meios não invasivos, não farmacológicos (massagens, técnicas de relaxamento, etc...);

Monitoramento
do bem-estar físico e emocional da mulher;
fetal, por ausculta intermitente do progresso do trabalho de parto por meio do partograma;

Após a dequitação
exame de rotina da placenta;
uso de ocitócitos no terceiro estágio se há risco de hemorragia;
prevenção da hipotermia do nenê;
amamentação na primeira hora.

Os Direitos da Mulher
01. Presença do companheiro ou alguém da família para acompanhar o parto, dando segurança e apoio.
02. Receber as orientações, passo a passo, sobre o parto e os procedimentos que serão adotados, com a mulher e o bebê. A mulher bem informada faz melhor a sua parte, ajuda mais.
03. Receber líquidos (água, suco), pois o trabalho de parto pode durar até 12 horas.
04. Liberdade de movimentos durante o trabalho de parto. A mulher pode caminhar sem restrições.
05. Escolha da posição mais confortável para o parto.
06. Relaxamento para aliviar a dor. Pode ser massagem, banho morno ou qualquer forma de relaxamento conveniente para a mulher.
07. Parto seguro, sem muitos procedimentos que podem até atrapalhar em vez de ajudar. É importante verificar sempre as contrações e escutar o coração do bebê.
08. Contato imediato com o bebê logo que nasce. Muito importante para mãe e filho.
09. Alojamento conjunto, para que o bebê fique o tempo todo perto da mãe, recebendo seu carinho e atenção.
10. Respeito. A mulher deve ser respeitada, chamada pelo nome, ter privacidade, ser atendida em suas necessidades.

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